A semente esverdeada de soja deixou de ser um detalhe visual e tornou-se um fator que merece atenção na competitividade do sistema de produção de sementes e óleo, exigindo diagnóstico preciso e estratégias de mitigação desde o campo até a pós-colheita.
Na última edição da Revista SeedNews (Edição XXIX, nov/2025), em parceria com a Maria de Fátima Zorato, compartilhamos um artigo sobre Sementes Esverdeadas. Nele abordamos o que é esse problema, os fatores que levam à retenção de clorofila em sementes de soja, a expressão de genes relacionados ao fenômeno, as consequências imediatas e de longo prazo na qualidade das sementes e do óleo extraído, além dos impactos para a indústria de sementes e de grãos. O texto é extraído dos avanços de um estudo da Faculdade de Ciências Agronômicas – UNESP, Campus de Botucatu, em parceria com a Universidade de Wageningen – Holanda e a Embrapa Soja.
Aqui no blog, seguimos trazendo ainda mais novidades e aprofundamentos sobre esse assunto. Confira!

Causas do Problema
A ocorrência de sementes esverdeadas tem aumentado em safras marcadas por extremos climáticos. Neste caso, o gatilho inicial é a combinação entre estresse abiótico em momento crítico do desenvolvimento e a suscetibilidade genética do material. Os estresses mais frequentes são temperaturas elevadas e deficiência hídrica, muitas vezes atuando em conjunto, com intensidade e duração capazes de interromper a rota de degradação da clorofila nas sementes de soja. Quando o estresse ocorre tardiamente, a partir do estádio R6, durante a fase de desidratação e aquisição da quiescência, o risco de retenção de clorofila aumenta. Nessa etapa final de maturação, a redução do teor de água e as alterações hormonais devem coordenar tanto a desestruturação dos cloroplastos quanto a degradação da clorofila. Se a perda de água ocorre sob condições adversas, essa degradação pode ser suprimida, enquanto os níveis de ácido abscísico se elevam, alterando a regulação de genes da rota.

Ocorrência de Sementes Esverdeadas e o Desempenho Fisiológico do Lote
A primeira etapa do estudo, envolvendo 18 lotes de sementes de soja com diferentes percentuais de sementes esverdeadas, evidenciou correlação negativa entre a ocorrência de sementes esverdeadas e o desempenho fisiológico do lote. Na faixa de até 9% sementes esverdeadas, a germinação manteve-se elevada e pouco variável. Acima desse intervalo, verificou-se queda progressiva das médias e aumento da dispersão, elevando o risco de não atendimento aos padrões mínimos de qualidade. Esse padrão é coerente com referências anteriores que situam em torno de 9% o ponto a partir do qual a presença de sementes esverdeadas no lote compromete a qualidade fisiológica. Os resultados reforçam a necessidade de monitorar o percentual de sementes esverdeadas em conjunto com demais testes de verificação da qualidade, a fim de orientar a classificação e o destino dos lotes.

Comparação Direta entre Sementes Amarelas e Esverdeadas
Na segunda etapa do estudo, selecionaram-se oito lotes com maiores percentuais de sementes esverdeadas e, a partir das amostras originais, separaram-se as sementes amarelas e as esverdeadas para avaliação da presença de clorofila residual e a expressão de genes associados à sua retenção.
A retenção de clorofila em sementes de soja cultivadas sob estresse por calor e seca durante a maturação está relacionada à redução na expressão de genes catabólicos de clorofila, incluindo STAY-GREEN 1 (D1), STAY-GREEN 2 (D2) e PHEOPHORBIDASE 2 (PPH2), além de algumas proteínas fotossintéticas. Nas diferentes cultivares avaliadas, houve maior expressão dos genes D1, D2 e PPH2 em sementes amarelas, o que de forma provável explica sua capacidade de degradar a clorofila até níveis adequados. Já em sementes que retém clorofila, a redução na expressão desses genes indica a manutenção das subunidades centrais dos complexos dos fotossistemas, durante a maturação.

Sementes Esverdeadas e a Redução na Longevidade
Os resultados na comparação entre as amostras de sementes amarelas e esverdeadas submetidas ao armazenamento em condições artificiais, com alta temperatura e alta umidade relativa do ar (35 ºC e 75% UR), condições que favorecem a aceleração da taxa de envelhecimento, foi notado um comportamento distinto em relação à capacidade de manutenção da germinação ao longo do tempo. As amostras de sementes amarelas iniciaram o armazenamento com germinações elevadas, próximas a 100% em praticamente todos os lotes, e apresentaram declínio gradual ao longo dos dias, demonstrando maior resistência à deterioração. Por outro lado, as sementes esverdeadas apresentaram desempenho nitidamente inferior. No início do armazenamento, os valores de germinação já eram mais baixos e declinaram muito mais rapidamente nas primeiras semanas. Em menos de 21 dias de armazenamento houve a redução em todos os lotes avaliados. Esse padrão demonstra que as sementes esverdeadas, que iniciam o armazenamento com qualidade fisiológica reduzida, apresentam menor capacidade de suportar o estresse imposto pelas condições de armazenamento.

A explicação para esse desempenho está relacionada a aspectos bioquímicos e fisiológicos. A retenção de clorofila nos tecidos da semente, característica das sementes esverdeadas, está associada ao acúmulo de espécies reativas de oxigênio (EROs) e a menor eficiência dos sistemas antioxidantes. Esse desequilíbrio promove danos oxidativos severos às membranas celulares e às reservas de lipídios e proteínas, acelerando a deterioração. Além disso, a incompleta maturação fisiológica impede a plena ativação de mecanismos de proteção, como a estabilização das membranas, a deposição adequada de açúcares protetores e a atuação de proteínas específicas.
Efeitos da Retenção de Clorofila na Qualidade e Estabilidade do Óleo de Soja

A retenção de clorofila não é um problema exclusivo da indústria de sementes, mas também da indústria de grãos. No processo de extração do óleo, mesmo pequenas concentrações de clorofila funcionam como fotossensibilizador, iniciando a oxidação de ácidos graxos, acelerando a rancificação e deteriorando a qualidade do óleo. Esse processo ocorre porque os elétrons da molécula de clorofila, ao serem excitados por pequenas quantidades de luz, transferem energia para o oxigênio, gerando EROs. Essas moléculas altamente oxidantes iniciam uma cadeia de reações que degradam lipídios, proteínas e outros constituintes do óleo, reduzindo sua qualidade. Os dados obtidos do estudo confirmaram esse efeito, enquanto o óleo extraído de sementes amarelas apresentou valores médios de clorofila residual inferiores a 1 mg/kg, o óleo extraído de sementes esverdeadas atingiu concentrações muito superiores, chegando a 16,27 mg/kg. Essa diferença explica a deterioração mais acelerada dos óleos provenientes de sementes com clorofila residual elevada.
Outro efeito relevante da presença de clorofila é a alteração no perfil de antioxidantes naturais do óleo. Em óleos provenientes de sementes esverdeadas, observa-se redução significativa dos teores de tocoferóis (alfa, gama e delta), compostos que desempenham papel essencial na proteção contra a oxidação lipídica. Essa redução foi evidenciada no comparativo entre os grupos: o óleo extraído de sementes amarelas apresentou valores superiores a 130 mg/100 g de tocoferóis totais, associados a maior estabilidade oxidativa, alcançando até 14 horas. Já o óleo extraído de sementes esverdeadas mostrou valores mais baixos, com teores de tocoferóis variando entre 67 e 110 mg/100 g e estabilidade oxidativa reduzida, entre 4 e 9 horas. Isso demonstra que a clorofila residual compromete tanto a conservação do óleo quanto seu valor nutricional, uma vez que os tocoferóis correspondem às principais formas de vitamina E presentes na soja.

Caminhos para Mitigação e Manejo
A combinação de fatores ambientais adversos e a suscetibilidade genética reforça a necessidade de estratégias integradas que envolvem o melhoramento genético com o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes a estresses abióticos, o manejo da lavoura e a adoção de tecnologias pós-colheita. A compreensão dos mecanismos que levam à formação de sementes esverdeadas e seus efeitos é um passo essencial para enfrentar esse desafio na produção de soja.
O enfrentamento do problema das sementes esverdeadas deve ser visto como um esforço conjunto entre pesquisa, produtores e indústria, com foco em manter a competitividade do sistema produtivo e assegurar a entrega de sementes e óleo de soja de alta qualidade ao mercado global.
Referências:
LUCCAS, D. A. Caracterização fisiológica, bioquímica e molecular em sementes de soja (Glycine max (L.) Merr.) com retenção de clorofila. Tese (Doutorado em Agronomia), Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, 2018.
TEIXEIRA, R. N. et al. Gene expression profiling of the green seed problem in Soybean. BMC Plant Biology, London, v. 1, p. 16–37, 2016.
Apoio:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, processo nº 456415/2013)
